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Vinho nem branco nem tinto: laranja

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“Branco, tinto, rosé ou laranja?” Não se espante com o laranja da pergunta. A cartela de cores dos vinhos agora tem mais esse tom, que é o novo queridinho de sommeliers mundo afora por ampliar as possibilidades de harmonização com comida.

A tendência remonta aos primórdios da vitivinicultura: a técnica de produção do vinho laranja nasceu há milhares de anos em algum ponto da atual república da Geórgia. Por definição, vinho laranja é um branco produzido de forma semelhante a um tinto – ou seja, o suco da uva fica em contato com as cascas por bastante tempo. É esse contato, maior ou menor, que dá cor aos vinhos – a cor é extraída da casca. No caso do laranja, ela tem gradações que vão do dourado ao cobre.

Além da cor, que vem da casca, grande parte desses vinhos tem influência de ânforas de barro, onde alguns deles são guardados. Essa era a forma tradicional de conservar vinhos na antiguidade. Na Geórgia, os vasos ou ânforas, chamados qvevri, são fechados e lacrados com cera de abelha e enterrados.

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Detalhes. A variedade Ribolla pede maturação perfeita para resultar em vinhos laranja equilibrados. FOTO: Leandro Mattiuz

Quem chamou a atenção para essa técnica e pautou sua retomada foi o produtor italiano Josko Gravner (leia ao lado), em meados dos anos 2000. De lá para cá, países do Cáucaso – onde está a Geórgia – voltaram a produzir vinhos laranja. Mas os exemplares mais conhecidos vêm da Itália (em especial do Friuli) e da Eslovênia.

A maior parte do vinho laranja é produzida segundo regras dos vinhos naturais. Ou seja: dispensam produtos químicos nos vinhedos e leveduras industriais na fermentação. Além disso, muitos não são filtrados e chegam a ser um pouco turvos, o que pode dar a falsa impressão de que são defeituosos.

No copo, eles têm aromas muito diferentes dos brancos normais. Frequentemente, lembram frutos secos (laranja seca, nozes, amêndoas, damasco e ameixa seca etc.) e têm notas oxidativas ou terrosas, de especiarias, como açafrão, mel e cera. Finalmente, pelo longo período de contato das cascas com o suco, são vinhos que têm taninos em diferentes intensidades e remetem a tintos mais delicados.

Só o tempo dirá se vinhos laranja são uma moda passageira. Pela forma de produção e escala, acabam sendo caros – o mais barato do painel provado pelo Paladar, o chileno Muscat Viejas Tinajas 2012 De Martino, custa R$ 101. Ou seja, eles não vão roubar mercado de Malbec argentinos ou Cabernet Sauvignon chilenos.
Os vinhos laranja oferecem uma gama de harmonizações bem mais ampla que a dos brancos normais (e de muitos tintos).

Além de peixes e frutos do mar, encaram bem, por exemplo, comidas muito temperadas, como a indiana, a tailandesa ou certos pratos da culinária brasileira. E até mesmo carne, não só de porco ou frango, mas também de cordeiro, em pratos que normalmente pediriam um tinto. Vinhos laranja são “um gosto adquirido”, admite Guilherme Corrêa, um dos mais premiados e experientes sommeliers do Brasil, da importadora Decanter. É dela o mais completo portfólio de vinhos laranja no mercado, incluindo os de Gravner.

na companhia de Corrêa e de Leandro Mattiuz, sommelier da Decanter em São Paulo, que provamos seis rótulos “laranjas” para o Paladar. A degustação foi na loja e bar à vin da importadora.

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De barro. O produtor Josko Gravner entre as ânforas onde fermenta e guarda seus vinhos laranja em Friuli, na Itália. FOTO: Divulgação

Achavam que ele estava louco

Josko Gravner vinificava normalmente: seus vinhos eram aromáticos, límpidos e premiados. Em 1987, ele foi à Califórnia, provou mais de mil vinhos e ficou frustrado com a homogeneidade dos rótulos. Voltou ao Friuli, na Itália, e concluiu que a resposta a seu inconformismo não estava no Novo Mundo, onde produzem o fermentado há poucas décadas, mas no Velho, no berço da bebida, a Geórgia. Gravner esperou o fim dos conflitos separatistas da União Soviética e, em maio de 2000, finalmente, conseguiu fazer sua primeira visita aos vinhedos georgianos. Ao provar o primeiro vinho em ânfora, teve a certeza de que esse seria seu caminho. Mercado e críticos achavam que ele tinha enlouquecido.

Nas palavras de Gravner, a ânfora funciona como um amplificador, para o bem e para o mal – ressalta qualidades, é verdade, mas também sublinha defeitos. Ou seja, uvas com algum desequilíbrio terão seus defeitos acentuados.
Defensor e praticante da biodinâmica, Gravner segue filosofia desenvolvida por Rudolph Steiner para cultivar as variedades locais Ribolla Gialla, Friuliano (antigo Tokay), Pinot Grigio e Riesling Itálico, que dão vinhos equilibrados, mesmo com macerações tão longas (até 7 meses de contato com as cascas).

Sobre a excentricidade do vinho laranja, Gravner diz: “Julgar um vinho pela cor é como julgar uma pessoa pela sua cor. O importante é o que está dentro”.

 

 

Por Guilherme Velloso e Marcel Miwa

Fonte: Blog Estadão

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